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Antes Que eu Desapareça

15/03/2026

Antes Que Eu Desapareça.

Nasce do contato com o medo da finitude e as vezes que a vida me apresentou um fim, seja por morte de algum ente querido ou os términos que nos acompanham ao longo da Vida.

Lutos transformados em poesia e eternizados no tempo através da escrita.

Se for me acompanhar devista-se, afinal, nua literalmente estarei abrindo meu coração e memórias!

Quando você aceitar esta vida que você não quer; talvez eu te dê a vida que você quer!

Mas, no instante que você aceitar não precisará da outra e esta é a dádiva.

Imediatamente aquele que se levanta ante a grandeza do universo e súplica a dádiva de estar vivo e consciente é posto a prova da dor do vazio e da solidão.

O primeiro passo talvez, seja, aceitar o incomodo inerente ao espaço criado pela decisão de ir além.

Os incômodos fazem parte do rugir da queda do ego, o retorno da alma que clama por espaço e sabedoria.

Rui dentro de mim o ser que posso ser!


Sempre que há dor no sistema há luz também!

Aquele que sabe, não sabe que o sabe e aquele que acha que sabe nada saberá.

O tolo traz consigo a semente da luz, do ser que reflete abundância da vida que se fez através do olho que tudo vê!

Da vida que se abre em fluxo, luz e abundância.

No inconsciente do mar de Deus navegam as águas da vida e aqueles que tem coragem de enfrentar o nada!


Sempre soube que existia algo além da dor.

Sempre soube que amar era mais fácil do que resistir; e que sorrisos são gratificações que trazemos na alma para lembrar que o divino se faz no dia a dia.

E que a maldade faz parte do jogo da vida que encobre o milagre que nasce todos os dias, todas as manhãs.

Não ultrapassamos os portões do nada sem antes termos atravessado nossas mazelas.

Não atravessamos mares antes de ter aprendido a navegar nossas marés.

Toda manhã abre uma nova perspectiva rumo ao novo e rumo ao aberto!

De objetivo em objetivo,
de amor em amor,
de meta em meta
minha testa não aguça nada além de nada,
meu peito jorra dor e minha alma clama novamente!

Parece infeliz a minha capacidade de ser feliz.

Otimista eu fico com um novo projeto e tudo parece bem e em seguida a vida rui.

Tão cansada que não sei nem mais por onde ir.

Incapacidade de ser feliz.


Usamos a nossa espiritualidade para fugir da dor... usamos nossa espiritualidade como fuga para a nossa incompreensão de nós mesmos e do outro... usamos artifícios para aniquilar a dor de perceber que nada sabemos e que somos sim incompletos em certo sentido... admiramos aquilo que gostamos e exortamos aquilo que detestamos enxergar.

Sem perceber ditamos códigos de conduta e aceitação e banimos o que negarmos, obrigamos o outro também ferido a suprir nossas necessidades e o afastamos caso não sejamos atendidos.

Aprendemos a amar o equilíbrio, o bonito e a duvidar e a questionar quem duvida, quem enfrenta e se emaranha em si...

Defendemos arduamente um posto de contradições ou contra ficções que nem mesmo nós somos capazes de decifrar... mas, obrigamos o outro a saber... Já que o incomodo do não saber alheio incomoda os olhos de quem vê!

Inconstantes somos na busca de ser, inconstantes na vida, na sobra, na água e no amor!


Já reparou quantas vezes você acorda desejando ser melhor que ontem?

Quantas regras se impõe o tempo todo?

E quanto tempo passa dando ouvidos a opinião alheia do que é preciso para ser feliz? Ou o que você deveria ter feito a respeito?

Já reparou que se acostumou a patologizar a vida e a acreditar que falta algo para você ser feliz agora?

Quantos bons conselhos te levaram apenas até a próxima esquina?

Seu valor não pode estar em algo externo, uma casa, um emprego, um namorado, um filho.

Não parece são que a vida se faça apenas nos momentos de conquista.

Não parece real que o medo de ter fracassado te assombra além da possibilidade de respirar o ar desse momento.

Não parece certo que o teu coração se feche e que precise de uma alavanca para abri lo novamente porque as pessoas não são confiáveis.

A conta não fecha.

Vale a pena sentir esse angústia todos os dias e perder esse instante pelo medo de não ter talvez uma morte digna?

Vale a tua face essa inconstância social que te adapta e encaixa?

Vale o teu juízo ter imposições para amar?

Vale a tua humanidade a meta que te escraviza sem limites?


Mergulhada na impermanência eu me vejo agora sem o afora de ontem e sem o até lá de amanhã.

Me vejo mergulhada num mar de dúvidas que me transpõe aos limites do humano em mim e que desfazem cada lástima de crença que habita meu ser.

Mergulhada na impermanência me vejo agora sucumbir ao medo, apavorada em meio ao por vir e insegurança por acreditar agora que a vida é muito mais do que imagino; e a confiança que tanto almejo ainda está por nascer e mesmo assim o passo dado, no largo abismo de mim mesma; e da vida que se fez no agora e que jorra e transborda vida.

Contudo que é.

No alargar desse céu que me chama e que me emana nada, dúvida e confiança.

Absurdo e graça.

Beleza e dor.

Ah!, o rugir do meu estômago que desmantela minhas vísceras e emana calor através dos meridianos e as toxinas da ansiedade que permeiam meu corpo e criam cisão, e eu luto para manter me ancorada e no controle do barco no soltar do fluxo da vida.


Só caminhando que eu encontro o caminho.

Só caminhando que o meu ser se engrandece e segue o fluxo da vida continua e ambígua.

Só de frente com o humano que o humano em mim se mostra.

Só em meio ao jogo da vida que meu céu alarga e dissipa todo o medo de ser menos e inconstante.

Só quando eu entrego em meio ao pânico que a luz se faz, se fez.

Só no caldo do engodo diário que me expando em paz.

Todo o resto é ilusão.

Do absurdo da dor, nasce o clamor do contentamento do dia a dia e da vida que nasce e jorra transborda, vida.

Vida que é luz e trevas em si mesma; e que é aquele que é apenas.


Porque?

A desilusão te abre como fagulhas de vida num passo onde a própria desconfiança abraça a vida.

Em muitos momentos não sabemos o que esperar da vida e qual caminho seguir, nesses momentos somos forçados a sobreviver comprimidos em uma angústia que nos assombra e nos coloca a margem de quem somos.

Existem momentos em que o ombro carinhoso de um amigo, o abraço generoso de nossos familiares não podem nos levar a lugar algum!

Nesses momentos somos colocados face a face conosco e sabemos que não podemos fugir.

É um momento de travessia que requer coragem e fé para seguir em frente.

Nesses momentos somos assombrados por nossas memórias e precisamos mais do que bons conselhos para seguir em frente.

Precisamos seguir o nosso coração em busca de quem somos.

Esse caminho nem sempre se faz com tranquilidade; e sim através de nossas dificuldades e nossas sombras podemos lapidar o diamante bruto do nosso coração. Nessas horas amparar-se significa conhecer-se e atravessar os muros e barreiras que construímos.


A questão talvez seja ver-se tão vulnerável...

Tão humana...

Tão frágil...

que o medo afronta até em coisas pequenas e que não tem nenhum valor...

Sabe que a vida é tão pequena e que não és isto de fato...

Mas, o ego te afronta dizendo que és e teme por não saber o que fazer frente a essa tua face humana que teme; que não espera que as coisas aconteçam e se amedronta frente a vida, frente a enfermidade, frente ao novo, frente a verdade, frente a sinceridade, a simplicidade e a humanidade.

Tudo está bem e tudo ficará bem, mas precisa acreditar que o pior já passou pequena e que os dias triste se foram e que as bênçãos jorram aos seus pés em glória e que você nem ao menos agradece ou reconhece.

Ignora o fato de ser muito amada. Ignora o fato da segunda chance.

Ignora a dádiva divina que te é dada todos os dias e procura pelo em ovo para ocupar sua mente.

Sem saber, nem crer que já se ama.


Tudo em mim agora é silêncio...

Onde nada foi silencioso nasceu um jardim de luz fulgurante e repleta de meandros amáveis.

Onde aquilo que era almejado se faz e o ruído não mais atordoa... O falar agora é o estrondoso sussurrar do silêncio... Entre o vácuo do ruído ao silêncio há espaço, paz e calma... E o ruído já não mais incomoda.... Apenas permeia, faz parte!

Toda vez que tento encontrar Deus me perco e toda vez que me perco Deus me encontra.

Quem nunca quis rebobinar a fita da existência? Sentir por um segundo que se está minimamente no controle!

Quem nunca quis ou tentou julgar o porquê das coisas?

Quem nunca sangrou junto a foice do destino e quis por um segundo que as coisas fossem diferentes!

Quem? Vasculho os andares, para encontrar a aceitação dentro de mim e por um segundo talvez parar de brigar com aquilo que é!


O que rui afinal? Minha loucura? Minhas sombras? Meus medos? Meu desespero? Minha desistência? Minha fé? Meu controle? Minha sapiência? Ruínas abrem clarões... forças de luz começam a se mover de dentro para fora para preencher, reconstruir aquilo que calou com o silêncio do Nada.

O que rui em mim que eu já não tenha visto antes, revisitado, sentido...

O que rui nessa dor sem fim! O que rui?

E o que nasce a seguir?

Existem verdades duras sobre você que precisam ser encaradas.

Muitas vezes acreditamos em ilusões e as admitimos como reais; quando na verdade apenas vemos fragmentos de projeções que sequer reconhecemos.

Somos tão limitados frente a esse inconsciente que passamos anos e década acreditando em algo e quando temos coragem suficiente para olhar para o meio como ele é, nos deparamos com a fantasia.

E dói se perceber fantasiando e iludido. Dói vulnerabilizar-se através dos dias e dizer sim ao equívoco. Dizer sim ao que foi... Para seguir em frente!


Longe dos ideais os sinais se fazem presentes, sem a antiga infantilidade que dizia saber o caminho para o amor, o caminho para Amar.

Percebo agora que talvez todo esse período de vazio componha um espaço aonde ainda não consigo reconhecer o Amor, reconhecer a possibilidade de um relacionamento saudável, longe de idealizações de alguém perfeito, mas, na perfeita discrepância de reconhecer que eu não sei.

Não sei como viver algo diferente do que vivi, não sei onde procurar alguém diferente dos que conheci. Não sei como encontrar esse algo porque eu nunca vi...

Não sei como não jogar, como não brigar por poder, como não possuir e nem ser possuída.

Como viver sem me preocupar com o amanhã.

Não sei como permitir alguma aproximação e não sei como me aproximar. Deixar me ser amada.

Não sei amar. Não sei educar. Não sei cuidar.

E sabendo que não o sei descubro que talvez já saiba.

Minha alma poesia cria e pulsa, repulsa, volta, retorna, inspira vida e segue até onde não sei!


Parem de roubar as minhas asas.

Parem de vasculhar as minhas entranhas.

Parem de me pedir aquilo que não posso ser.

Parem de me desrespeitar.

De passar por cima de mim.

Parem de me ignorar para o seu bel egoísmo.

Parem de fingir que isso é amor.

Parem de achar que tem o direito de me dizer o que fazer.

Parem!

Me deixem respirar sem o ar contaminado das suas ideias e convicções.

Parem de amaldiçoar os meus planos e de dizer que quem sou não basta. Parem. Eu não permito mais que vocês invadam e vasculhem minha alma. Que ditem nem que seja inconscientemente como devo me comportar ou ser.

Parem de me invalidar para administrar minhas escolhas e comportamentos através dos seus vícios de controle.

Parem! Minha bondade e amor independem da sua aprovação! Parem antes que eu grite! Parem antes que eu diga com todas as letras o quão detestável é essa situação.

Parem! Eu preciso respirar! E aspirar a minha vida.


É a vida se desfazendo.

Os ares mudando a direção dos ventos.

É a vida se refazendo.

No peito a dor do que foi e o anseio do que virá, ainda sem trilha que possa ser vista; por isso o pesar.

É a vida se refazendo, nas entranhas do Nada, no Vazio do Sopro, no magnetismo do magma é a vida queimando todo desconforto e toda ilusão que não cabe mais nesse lugar de bênção.

É a vida testemunhando ela própria a vida.

O assombro vem de sentir se no controle da vida incontrolável que todos os dias clama pelo aceite da morte, pq essa é realidade.

Tudo morre a todo instante. É a vida nascendo, mas esse milagre só vemos com os olhos do coração. Com os olhos da mente só vemos degradação. Com os olhos do amor vemos misericórdia, júbilo.

É a vida sendo vida.

Construir catedrais! Apesar de tudo... Sem não... Sem porquê... Só isso... Sem medo... construir templos... reconstruir templos... re apropriar templos... substituir templos... sacralizar corpos...

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